Armadilhas bancárias


Não é novidade: a maioria dos brasileiros não consegue economizar e não sabe como ou onde investir...

E, infelizmente, entre os inúmeros fatores que contribuem para essa imaturidade financeira, o que mais pesa reside justamente na nossa tão conhecida acomodação, no pensamento comum de que, por parecer muito difícil, não vale a pena nem ao menos tentar.

Além disso, milita contra o desenvolvimento de nossa consciência financeira a existência de uma forte crença de que gerentes de banco e agentes de investimento são consultores financeiros, quando, na verdade, nem de perto se assemelham a estes. Gerentes de banco e agentes de investimentos são funcionários de instituições financeiras e precisam vender seus produtos, frequentemente oferecendo “oportunidades” que irão de encontro aos interesses dos pequenos e médios investidores.

Os grandes fundos de previdência, por exemplo, oferecidos pelos maiores bancos brasileiros, possuem taxas de administração que vão de 2% a 4% ao ano e taxas de carregamento que não raramente ultrapassam 4%. Isso significa que, para cada R$ 1.000,00 depositados pelo investidor, o banco irá lhe cobrar anualmente entre R$ 20,00 e R$ 40,00, além, é claro, de uma taxa a cada carregamento, pois para cada R$ 1.000,00 depositados, o banco lhe cobrará uma tarifa de R$ 40,00, apenas para registrar esse depósito.

Nessa situação, até mesmo a caderneta de poupança (hoje com juros de aproximadamente 8% ao ano) apresenta rentabilidade superior a dos fundos de previdência, sendo que muitos destes sequer geram rendimentos a seus investidores e, em alguns casos, ainda produzem prejuízos.

Por isso, vamos conferir, a seguir, algumas espécies de “investimentos” comumente oferecidas pelos bancos brasileiros, de modo que, ao final, tomando consciência das armadilhas apresentadas, você tenha condições de evitá-las, não sendo mais enganado por aqueles a quem confia suas preciosas economias.

Vamos lá:

Títulos de capitalização

Os títulos de capitalização já foram minuciosamente abordados no artigo “Títulos de Des(capitalização)”. No entanto, precisamos novamente mencioná-los, pois, ainda que cerca de 15% dos brasileiros com renda superior a R$ 4.000,00 adquiram esses papeis, constituem eles, de longe, a espécie de aplicação mais nociva oferecida pelas instituições financeiras brasileiras.

Vendidos pelos bancos como uma forma de concorrer a prêmios e de guardar dinheiro, não consideramos os títulos de capitalização como um investimento. Seriam eles, no máximo, uma poupança forçada muito mal remunerada.

Isso ocorre porque a maioria dos títulos de capitalização, diante de altas taxas de administração e de sorteio, oferece uma rentabilidade próxima a zero, ainda que publicamente ofereçam rentabilidades, por exemplo, semelhantes a da poupança. É uma verdadeira mentira, pois, ainda que garantam os mesmos rendimentos da tradicional caderneta de poupança, apenas uma parte do valor do título será capitalizada, sendo o restante destinado a custear os gastos com os sorteios e com a administração dos títulos (o lucro das instituições financeiras).

Vejamos um exemplo:

Ourocap Reserva:
Aplicação mensal: R$ 100,00
Prazo de aplicação: 72 meses
Destino da aplicação (1º ao 3º mês): 2,67% (cota de sorteio), 87,33% (cota de carregamento), 10,00% (cota de capitalização)
Destino da aplicação (4º ao 48º mês): 2,67% (cota de sorteio), 10,64% (cota de carregamento), 86,69% (cota de capitalização)
Remuneração do capital: 0,5% a.m. + TR (é quase sempre inferior a 0,05% a.m.)

Analisando-se esses dados, podemos perceber que, das três primeiras aplicações, 2,67% será destacado para os sorteios (custos com os sorteios e com os prêmios), 87,33% será cobrado pela instituição financeira como taxa de administração e apenas 10% será destinado a reserva do valor do título. Isso significa que, dos R$ 300,00 que você aplicou nos três primeiros meses, apenas R$ 30,00 continuam sendo seus, pois R$ 270,00 já foram descontados a título de cotas de sorteio e de carregamento.

Nas 69 parcelas seguintes, 2,67% continuam sendo destacados para os sorteios, 10,64% é cobrado pela instituição financeira como taxa de administração e 86,69% é efetivamente aplicado para a capitalização.

Vejamos, agora, como fica a rentabilidade desse título e o valor que o investidor receberia, ao final, se tivesse simplesmente aplicado na tradicional caderneta de poupança:


Em resumo, se você tivesse apenas guardado o dinheiro no colchão, teria hoje R$ 7.200,00; se tivesse aplicado nesse título de capitalização, teria R$ 7.253,92 (valor bruto, sem descontar o IR); e se tivesse aplicado na tradicional caderneta de poupança, teria hoje R$ 9.239,78.

E, se não bastasse isso, muitos títulos de capitalização estabelecem um prazo de carência, antes do qual o investidor só poderia resgatar o dinheiro com um deságio de, digamos, 20% ou 30% (isto é, se o investidor aplicou R$ 1.000,00, só poderá resgatar o título por R$ 700,00 ou R$ 800,00). Qualquer semelhança a um furto não é mera coincidência.

Concluindo, por mais que simpatizemos com os bancos, quando a maioria dos brasileiros os criticam, acreditamos que os títulos de capitalização deveriam ser banidos do Sistema Financeiro Nacional, por serem verdadeiras armadilhas ao consumidor, que é prejudicado de uma maneira não razoável e sem receber nada em contrapartida, a não ser a “expectativa” de concorrer a prêmios pelos quais ele mesmo paga.

Fundos de investimento

Fundos de investimento também constituem uma armadilha bancária? Sim e não.

Na verdade, existem, sim, excelentes fundos de investimento, sendo a maioria gerido por gestores não associados à instituições financeiras, os denominados “gestores independentes”. Na prática, porém, você só terá acesso a esses fundos diretamente, entrando em contado com os próprios gestores, ou por intermédio de corretoras de títulos e valores mobiliárias, que farão a intermediação, geralmente sem custos para o investidor.

Podemos dizer, com razoável certeza, que o seu banco não os distribuirá. Ao contrário, os grandes bancos brasileiros distribuem apenas seus próprios fundos de investimento, muitos dos quais foram constituídos apenas para gerar receitas com taxas de corretagem e de administração, e não para ajudar a desenvolver o patrimônio de seus clientes.

Vamos a um exemplo prático: enquanto os gestores independentes cobram uma taxa de administração de 0,5% a.a. para um fundo DI, cujo patrimônio é composto basicamente por títulos públicos federais, os fundos oferecidos pelos maiores bancos brasileiros chegam a cobrar 5% de taxa de administração, corroendo qualquer rentabilidade que se pudesse esperar desses fundos.

Há, ainda, aqueles fundos que investem apenas em uma ação (Fundo de Ações da Petrobras, por exemplo). Por que pagar uma taxa de administração de 2%, 3% ou 4% a.a. em um desses fundos, se você pode adquirir ações da empresa diretamente no mercado?

Enfim, tenha consciência, pois só investindo em fundos de investimento com taxas razoáveis de administração e com um bom histórico de rentabilidade é que você verá seu patrimônio se desenvolver.

Aliás, é interessante registrar, para concluir, que, embora a rentabilidade passada não seja garantia de rentabilidade futura, prejuízos recorrentes são bons indicativos de que prejuízos futuros poderão vir a ocorrer no fundo em que você pretende investir.

Tesouro Direto

Vocês estão brincando... Não eram os maiores defensores do Tesouro Direto?

Pois é, ainda somos. O problema é que grandes bancos costumam cobrar taxas de administração de 0,5% a.a., para a realização de um serviço praticamente automatizado.

Boas corretoras de títulos e valores mobiliários, por outro lado, cobram uma taxa de administração de cerca de 0,1% a.a., a exemplo da XP Investimentos (0,1% a.a.) e da Spinelli (0,08% a.a.).

Parece pouco, mas vejamos o resultado gerado, no longo prazo, por um título vinculado à taxa Selic (consideramos uma taxa de 13,75% a.a., já descontado o IR):


Em números, uma aplicação de R$ 10.000,00, após 120 meses, teria gerado um montante de R$ 31.121,00, considerando-se uma taxa de administração de 0,1% a.a., e de R$ 29.966,00, considerando-se uma taxa de administração de 0,5% a.a. Ou seja, o investidor teria deixado de ganhar R$ 1.155,00 se, ao invés de aplicar por intermédio de uma corretora independente, houvesse aplicado por meio da corretora oferecida por seu banco.

CDBs, LCIs e LCAs

Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) são excelentes investimentos de renda fixa.

São tão seguros quanto à poupança (também são protegidos pelo FGC) e, na teoria, deveriam oferecer uma rentabilidade significativamente maior que esta. Dizemos na teoria, porque na prática os grandes bancos brasileiros costumam pagar pouco por esses papeis, ainda que constituam uma das grandes fontes de captação de recursos que estão a sua disposição.

Isso ocorre porque esses bancos possuem uma grande rede de clientes, com dezenas de milhões de correntistas e de poupadores dispostos a preencher suas contas. Assim, na prática eles pagam muito pouco em seus CDBs (80% ou 90% do CDI) e em suas LCIs e LCAs (70% ou 80% do CDI).

Desse modo, quando o imposto de renda é descontado dos rendimentos de seu CDB, você ganha praticamente o mesmo que na poupança, isso quando não ganha menos. Bancos como o Bradesco, por exemplo, oferecem, para grandes valores, CDBs remunerados à taxa de 97% da taxa CDI (o que equivale, descontado o imposto de renda mínimo de 15%, a 82% da taxa CDI). No Banco do Brasil, por sua vez, não espere taxas acima de 93%, a não ser para valores realmente expressivos.

Com relação às LCIs e LCAs, embora sejam isentas de imposto de renda, os grandes bancos pagam por estas quase o mesmo que pagam pela poupança, com a desvantagem que você não poderá movimentar o dinheiro por 1 ou 2 anos. O Banco do Brasil, por exemplo, oferece LCIs remuneradas à taxa de 83% da taxa CDI.

Em todo o caso, para fins de comparação, seguem alguns instrumentos de renda fixa distribuídos pela corretora Spinelli (considerando um prazo de investimento de 2 anos):

LCI – Banco Fibra (99% da taxa CDI)
LCI – Banco Original (98% da taxa CDI)
LCI – Banco Intermedium (97% da taxa CDI)
LCA – Banco Fibra (99% da taxa CDI)
LCA – Banco ABC Brasil (95% da taxa CDI)
LCA – Banco Indusval (95% da taxa CDI)
CDB – Banco Indusval (117% da taxa CDI)
CDB – Banco Fibra (111% da taxa CDI)
CDB – Banco Fator (110% da taxa CDI)




É isso, não queremos indicar este ou aquele investimento, mas salientamos que, dependendo do local onde você o realiza, sua rentabilidade pode apresentar grandes diferenças, tal como demonstrado acima.

Apenas no caso dos títulos de capitalização, recomendamos abertamente: não, nem pensar, em nenhum lugar.

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